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A Wikipedia se tornou incrivelmente popular por ter conseguido atrair colaboradores de qualidade pelo mundo todo. Embora ciclicamente envolvida em escândalos corporativos, pessoais e até policiais, a equipe central da enciclopédia realizou um excelente trabalho em dois níveis, o técnico e o de aglutinação.
Pelo lado técnico, precisamos reconhecer que o modelo Wiki de linguagem é altamente intuitivo, prático e acessível. Mesmo pessoas sem qualquer conhecimento de linguagem de programação pode editar e produzir conhecimento sem complicações maiores. Isso permitiu que ela se tornasse uma enciclopédia para todos, uma Wikipedia, e evitou que ela se tornasse uma Geekpedia, que somente interessaria aos tecnologicamente instruídos.
No que diz respeito ao seu trabalho de aglutinação de escritores, o prodígio foi maior ainda, pois os wikis permitiram que o trabalho colaborativo e voluntário atingisse um espantoso nível de eficácia. Um texto pode ser escrito, editado, corrigido, e publicado em poucos minutos. Tudo isso feito simultâneamente por redatores espalhados pelo mundo a fora.
Redatores que foram convencidos a trabalhar em troca de absolutamente nada. Nem mesmo um centavo. Nem mesmo prestígio profissional, já que os artigos não são assinados. Nem mesmo fama acadêmica, já que grande parte das instituições sequer permite que a Wikipedia seja citada como referência bibliográfica.
Agora vem o pior. Sarah Perez, escrevendo no ReadWriteWeb, divulgou uma notícia que caiu como uma bomba entre os colaboradores europeus e americanos. Uma grande editora alemã, a Bertelsmann, anunciou o lançamento de uma versão comercial impressa da Wikipedia. Ela custará por volta de US$20.00, e os milhares de redatores [que, não nos esqueçamos, são colaboradores voluntários] não receberão um níquel pelo seu trabalho.
Tanto a Bertelsmann quanto a Wikia, proprietária da Wikipedia, se negaram a revelar quanto a Wikia [que já pretende desafiar o próprio Google] receberá pelo contrato. Acredita-se que seja uma soma multi-milionária.
E quanto aos ingênuos redatores/editores/voluntários da Wikipedia, que acreditaram até agora no generoso conto do almoço grátis? Veja o que diz Mark O’Neill, que escreve no blog Now Sourcing:
"Wikipedia is ripping them off big-time. No, in fact, let’s not beat around the bush here. Let’s say it for what it really is. Wikipedia is SHAFTING THEM....Had they known that Wikipedia would then use their work in a commercial printed venture, I’m sure they would have had second thoughts about writing those articles. At the very least they would have demanded a contract and perhaps a guarantee of financial compensation later."
May 7, 2008 12:31 PM
Wikipedia perto do fim?
A Wikipedia se firmou como uma das principais fontes de referência disponíveis na Web, mas pode ser que o seu atual modelo de gestão esteja se aproximando do final.
Uma guerra secreta entre duas facções se desenvolve há bastante tempo na Wikipedia central, nos Estados Unidos, mas até agora era conhecida apenas por aqueles diretamente envolvidos no debate e por mais alguns poucos observadores.
Agora o conflito se agravou a tal ponto que está sendo notado, nos Estados Unidos e na Europa, até mesmo pela grande imprensa, geralmente a última a perceber e compreender as rápidas mudanças da Internet, e também o seu significado.
As duas facções em luta são a dos Deletadores e a dos Inclusionistas.
Os Deletadores são a nova geração de wikipedistas, geralmente na faixa dos vinte e trinta anos. Eles defendem a idéia de que a elite dirigente [aproximadamente mil pessoas] deve ter maior controle sobre o conteúdo da Wikipedia.
Os Deletadores receberam esse nome por parte da velha geração de fundadores da enciclopédia por que eles costumam deletar sumariamente qualquer conteúdo que não lhes pareça merecer um verbete, ou mesmo os verbetes que não concordem com suas visões políticas e sociais. Pelo que se diz, os Deletadores têm simpatias ou mesmo vínculos formais com o Partido Democrata e grupos da esquerda radical dos Estados Unidos.
Os Inclusionistas, supostamente apolíticos, são os fundadores originais da Wikipedia. Eles são de uma geração anterior, na faixa dos quarenta e cinqüenta anos. Pertencem à segunda geração de geeks, sucessores daquela que criou a Internet, a Web, o eMail, e que colaborou no desenvolvimento de tudo aquilo que conhecemos hoje no mundo da computação, como sistemas operacionais e pacotes de software científico, de produtividade e de gestão.
Para os Inclusionistas, a Wikipedia deve se manter fiel às suas idéias originais, e permitir que usuários comuns, como nós, incluam os verbetes que lhes pareçam mais relevantes. Eles vêm a Wikipedia mais como uma ferramenta potencializadora de negócios para os ramos lucrativos do complexo, e não como ferramenta de ação política.
Os Inclusionistas defendem a idéia de que não se deve restringir ou impedir a criação de verbetes, mas que apenas se deve gerenciar o seu conteúdo, de forma a depurar erros acidentais [derivados de informação de má qualidade] ou intencionais [derivados de parcialidade ou má fé].
Os Deletadores acham que as elites dirigentes da Wikipedia devem ter poder de veto não apenas sobre o conteúdo, mas também sobre a mera existência dos verbetes. Eles costumam deletar rapidamente [disso deriva seu nome], às vezes em minutos, qualquer entrada que lhes pareça indevida.
Na verdade, é um debate entre a visão de que a enciclopédia deve ser universalmente aberta e apolítica, e a de que ela deve ser uma enciclopédia monitorada de perto pela camada dirigente, e que esteja a serviço de causas políticas e comportamentais.
Esse debate se aqueceu a tal ponto, dois anos atrás, que os wikipedistas identificados com as causas cristãs ou politicamente conservadoras se retiraram totalmente da Wikipedia e fundaram uma nova enciclopédia, a Conservapedia, ainda em seus primeiros passos. Isso deixou apenas esquerdistas e centristas no comando da Wikipedia.
Logo a seguir, muitos dos centristas remanescentes também se retiraram, denunciando a instrumentação da Wikipedia pelo grupo envolvido com os aspectos lucrativos do empreendimento. Eles fundaram uma terceira enciclopédia, a que deram o nome de Citizendium.
Parece tratar-se de um fenômeno restrito aos Estados Unidos, no presente momento, que reflete indiretamente o debate político americano, e que é quase completamente ignorada pelos Wikipedistas de outros países, como o Brasil.