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A rápida transformação da Web/Internet ainda não foi completamente compreendida nem mesmo pelos mais bem informados analistas. Principalmente em países como o Brasil, que são muito mais consumidores que produtores de inovação, a conscência a respeito dos processos complexos pelos quais ocorre essa transformação ainda não está desenvolvida.
A Internet brasileira está presa à totalmente ultrapassada concepção de portais. A decadência dos megaportais internacionais, como Aol, Yahoo! e Msnbc; a situação desesperadora e humilhante em que se encontram arrogantes mas agonizantes jornais como New York Times, Los Angeles Times e Washington Post; tudo isso aponta para uma reordenação do controle dos meios informação em nível global.
A situação brasileira é ainda pior, na medida em que a cultura local é, como a chinesa p.e., avessa ao pensamento inovador, e muito mais dada à cópia do que é produzido nos centros dinâmicos da economia em rede. Há uma desconfiança visceral em relação àquilo que não é tradicional, e isso faz com que a crise seja muito mais difícil não somente de combater, como até mesmo de diagnosticar.
A capacidade de resiliência das empresas de comunicações brasileiras é muito pequena frente ao maremoto de transformação que está acontecendo no mundo da transmissão de notícias. Os dois maiores conglomerados jornalísticos do país, Estado e Folha [ambos de São Paulo], estão sofrendo uma sangria de leitores que não dá sinal de terminar ou mesmo diminuir.
A Folha tentou superar a crise com o Uol, mas nem mesmo isso parece estar dando resultado. Os usuários são cada vez mais refratários à idéia de pagar para ter acesso a informação e entretenimento, e estão migrando em massa para redes gratuitas de relacionamento/social media. A própria Globo só é lucrativa [ainda] por controlar uma gigantesca rede de televisão que tem dezenas de milhões de consumidores.
No entanto, a televisão assiste a uma queda cada vez maior de audiência, pois os seus consumidores passivos se tornam agentes ativos na Web. Além do mais, os que trocam a televisão pela rede planetária de computadores representam exatamente a nata da população do país: são os mais ativos, os mais jovens, os mais educados, os de melhor nível financeiro em cada camada social.
Os meios tradicionais de comunicação, em uma palavra, falharam em construir uma forte capacidade de resiliência perante essa catastrófica [para eles] transformação.
O site Internet Evolution perguntou aos seus leitores qual é, nos dias de hoje, o maior monopólio presente na internet. O Google foi considerado o mais onipresente monopólio da rede, deixando para trás competidores de peso como Microsoft [2º lugar] e Yahoo! [3º lugar].
Ao contrário dos outros dois, o Google não cobra por software [como Microsoft], ou por hospedagem [como Yahoo!]. Todos os serviços oferecidos pelo Google são aparentemente gratuitos. É evidente que eles são pagos pelos anunciantes, já que os labirintos do Google estão repletos de propaganda.
Parece que tudo acaba aí, mas isso é uma falsa impressão, já que o Google é uma esfinge de várias faces. Na verdade, os seus serviços são avidamente utilizados por agências governamentais de segurança e espionagem. A integração das bases de informação das agências de inteligência do governo americano foram totalmente desenhadas pelos programadores do Google, e o valor total do contrato não foi tornado público por nenhuma das partes envolvidas.
Não se sabe a respeito de contratos entre o Google e outros governos, que no geral são muito menos transparentes a respeito dos gastos na área de inteligência, com a exceção honrosa de Dinamarca e Canadá. Sabe-se, no entanto, que a empresa tem contato muito próximo com a ditadura chinesa, tendo inclusive fornecido aos burocratas de Pequim tecnologia que lhes permite bloquear o próprio serviço de buscas do Google.
Quanto ao Brasil, a situação chega a ser muito mais preocupante, na medida em que esse é o único país em que a rede social Orkut [do Google] é loucamente popular. Segundo notícias vindas de Brasília, a empresa concordou em colocar à disposição do governo lulista todos os arquivos de seus usuários. Inclusive aqueles marcados como confidenciais.
A justificativa não poderia ser mais nobre, o combate à pedofilia, mas nada impede que as agências governamentais extrapolem essas atribuições. Afinal, há juízes sendo investigados por autorizarem escutas telefonicas aos milhares, sem qualquer critério. Isso é extremamente preocupante, na medida em que o lulismo chega ao ponto de fazer dossiês sobre os gastos de ex-presidentes, com o deliberado fim de chantagear a oposição.
Outro ponto que me parece interessante observar é que a cultura brasileira, embora multifacetada, deve muito à matriz cultural carioca, baiana e nordestina. A linha que vai, digamos, do Rio de Janeiro a Belém, é rica em traços culturais que são muito menos cultivados no sul do país. A música, os festivais religiosos, as festas pagãs, são incomparavelmente ricos nessa região. Isso faz com que o tipo de personalidade aceitável seja moldado por um entorno cultural de expansibilidade e sociabilidade extremadas.
Nessa região, traços de caráter como afabilidade, familiaridade, alegria e espontaneidade, são quase que obrigatórios para que uma pessoa possa ser aceita em qualquer meio social. A introversão é mal vista, e pode ser sinal de uma personalidade sobranceira, arrogante, hostil. Nessas condições, a cultura regional sempre exige o desenvolvimento de traços de comportamento que se conformem ao padrão socialmente aceito.
Além disso, mas não menos importante ou verdadeiro, o clima tem o seu papel. Os quatro estados do sul têm invernos muito mais rigorosos, o que faz com que a rua seja menos valorizada que a casa. Ficar em casa à noite e ler não é tão chocante ou anti-social quanto em outras regiões. Os países mais frios do hemisfério norte têm uma cultura de leitura voraz e constante, e talvez esse seja um dos motivos principais.
O surgimento de uma rede de televisão nacional teve um impacto violento sobre a integração e homogeneização das culturas brasileiras. Talvez esse processo tenha começado de forma não muito planejada, mas depois que seus resultados e seu potencial para o mundo dos negócios se tornaram evidentes ele passou a ser.
A única rede nacional de TV foi, por muitos anos, a Globo. Tendo como sede o Rio de Janeiro, foi natural que ela fosse a representante “oficial” da cultura carioca para todo o resto do país. Quando descobriu seu filão de ouro, as novelas, ela passou de usuária de bens culturais para criadora de cultura.
Por que a leitura é um hábito tão estranho à cultura brasileira atual? Não me parece que a velha desculpa de que os livros são muito caros seja explicação suficiente. O preço dos livros é decorrência da falta de procura da mercadoria, não o contrário.
Já houve tempos em que se lia muito mais. E eram tempos em que as livrarias eram muito raras, que os lançamentos eram espaçados e de gosto duvidoso. Isso para não falar de traduções de qualidade discutível. Algumas até mesmo mudavam o sentido das frases ou de histórias inteiras. E os autores brasileiros? Sempre confundindo ser “escritor“ com ser “intelectual“... [argh!]
Mesmo assim, lia-se muito.
A introdução da televisão me parece a resposta. Não o veículo apenas, mas o tipo de desarranjo [desencanto?] que produziu na própria vida diária. Duas tendências foram acentuadas pela TV, o hábito das novelas e a exposição excessiva à música.
As novelas não foram de forma alguma uma criação da TV, elas já existiam no rádio. Aliás, antes do rádio elas floresceram nos jornais do século dezenove. O que as emissoras de televisão conseguiram fazer foi transformá-las em um vício dotado de respeitabilidade. Antes, eram apenas um derivativo, um divertimento inocente. Foram transformadas em algo muito próximo da dependência química.
Da mesma forma, a exposição excessiva e obrigatória à música foi uma potencialização do que já havia no rádio há décadas. Mais ainda que as novelas, a música vai se transformando em uma espécie de muralha que separa as pessoas umas das outras, e que as isola do ambiente em que vivem.
O resultado, em um caso e no outro, foi a morte do silêncio e da leitura.
A IBM foi mais uma vez acusada de ajudar os nazistas no genocídio dos judeus europeus. A companhia, líder há décadas no gerenciamento e processamento de dados, reconhecidamente enviou máquinas e promoveu cursos de treinamento de funcionários alemães. Esses mesmos funcionários gerenciaram e tecnificaram a captura e o extermínio de milhões de judeus nos campos de concentração, durante a Segunda Guerra Mundial.
O assunto já era comentado há muito tempo na comunidade de informação, mas voltou agora à baila durante um debate realizado na Câmara de Representantes dos Estados Unidos. Chris Smith, deputado republicano eleito por New Jersey, lembrou que a IBM indiretamente colaborou no Holocausto. "Vocês já se perguntaram por quê a Gestapo sempre tinha aqueles apurados registros de onde os judeus viviam ? Porque a IBM os possibilitou."
Nos dias de hoje, segundo ele, outras companhias de tecnologia colaboram com regimes ditatoriais e obscurantistas, como China e Arábia Saudita. De fato, algumas empresas já foram flagradas ao entregar dados pessoais de internautas à polícia política de várias ditaduras. Google, Microsoft, Yahoo! e Cisco já foram publicamente denunciadas pela sua política de colaboração com várias tiranias islâmicas e, principalmente, com a China.
O representante [deputado] Smith apresentou um projeto de lei, o Ato da Liberdade Global Online, que punirá empresas americanas de tecnologia que venham a colaborar com regimes repressivos.
As redes sociais aparentemente se transformaram em uma tendência irreversível. No entanto, ainda está faltando compreender a real profundidade de suas implicações para a privacidade e a segurança de informação. Os serviços que existem hoje, podem simplesmente desaparecer amanhã.
Isso pode ocorrer em meio a um processo de consolidação do mercado, ou devido à obsolescência de certas tecnologias. Pode ser devido a alguma revolução nos meios e processos de estocagem de informação, ou mesmo uma inovação imprevista na tecnologia de transmissão de dados.
Por outro lado, a resiliência das redes de computadores não foi nem de longe testada em uma situação de stress geopolítico real. Poderia ser algo como uma guerra convencional de grandes proporções, ou a ocorrência de sucessivos ataques terroristas de alta intensidade com o uso de bombas radioativas ou biológicas. Poderia até mesmo acontecer que essas ações sejam exclusivamente virtuais, já que é sabido que a China está investindo aceleradamente em sua capacidade de atacar a Rede.
Em qualquer desses cenários, uma quantidade gigantesca de informação será irremediavelmente perdida. Os danos nem mesmo podem ser estimados, pois eles envolverão não apenas a perda de dados comerciais e bancários, mas também o desaparecimento dos próprios registros e memórias de vida de milhões de pessoas. Contatos pessoais e de trabalho; coleções de links, de música, de fotos, de filmes, ou de documentos de todo o tipo.
Uma precaução deveria ser tomada por todos para minizar os riscos: espalhar seus arquivos por um grande número de redes sociais. Isso minimizaria os riscos decorrentes de ataques intencionais, ou de falhas decorrentes de acidentes tecnológicos e de catástrofes naturais.
Alguns exemplos: se suas fotos estão estocadas no Flickr, tenha também uma conta no Photobucket ou no Panoramio; se o seu blog está hospedado no Typepad, mantenha-o também atualizado no Vox ou no LiveJournal; se seus links e históricos de navegação estiverem guardados apenas no Technorati, considere mantê-los também no Ma.gnolia. Até mesmo contas de email devem ser redundantes, desde que mantidas em diferentes servidores.
Qualquer precaução, por maior que seja, ainda é insuficiente. E a tendência é de que os riscos cresçam de forma exponencial.