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O site Internet Evolution perguntou aos seus leitores qual é, nos dias de hoje, o maior monopólio presente na internet. O Google foi considerado o mais onipresente monopólio da rede, deixando para trás competidores de peso como Microsoft [2º lugar] e Yahoo! [3º lugar].
Ao contrário dos outros dois, o Google não cobra por software [como Microsoft], ou por hospedagem [como Yahoo!]. Todos os serviços oferecidos pelo Google são aparentemente gratuitos. É evidente que eles são pagos pelos anunciantes, já que os labirintos do Google estão repletos de propaganda.
Parece que tudo acaba aí, mas isso é uma falsa impressão, já que o Google é uma esfinge de várias faces. Na verdade, os seus serviços são avidamente utilizados por agências governamentais de segurança e espionagem. A integração das bases de informação das agências de inteligência do governo americano foram totalmente desenhadas pelos programadores do Google, e o valor total do contrato não foi tornado público por nenhuma das partes envolvidas.
Não se sabe a respeito de contratos entre o Google e outros governos, que no geral são muito menos transparentes a respeito dos gastos na área de inteligência, com a exceção honrosa de Dinamarca e Canadá. Sabe-se, no entanto, que a empresa tem contato muito próximo com a ditadura chinesa, tendo inclusive fornecido aos burocratas de Pequim tecnologia que lhes permite bloquear o próprio serviço de buscas do Google.
Quanto ao Brasil, a situação chega a ser muito mais preocupante, na medida em que esse é o único país em que a rede social Orkut [do Google] é loucamente popular. Segundo notícias vindas de Brasília, a empresa concordou em colocar à disposição do governo lulista todos os arquivos de seus usuários. Inclusive aqueles marcados como confidenciais.
A justificativa não poderia ser mais nobre, o combate à pedofilia, mas nada impede que as agências governamentais extrapolem essas atribuições. Afinal, há juízes sendo investigados por autorizarem escutas telefonicas aos milhares, sem qualquer critério. Isso é extremamente preocupante, na medida em que o lulismo chega ao ponto de fazer dossiês sobre os gastos de ex-presidentes, com o deliberado fim de chantagear a oposição.
Como a maior parte das pessoas tem pouco conhecimento sobre a segurança de informação, assim também elas não sabem o quanto suas informações são valiosas para pessoas ou instituições mal-intencionadas. Dessa forma, não se preocupam em assegurar seu direito à privacidade online.
À medida que usamos dia após dia a internet, deixamos um rastro que é seguido com facilidade pelos mecanismos de busca. Os cookies, registrados em nossos computadores pelos sites que visitamos, são uma rica fonte de informação para os mecanismos de busca, dos quais o onipresente Google é o mais conhecido e perigoso.
Como se não bastasse isso, os sites usam cada vez mais recursos com a tecnologia Flash, da Adobe. Essa empresa tornou o Flash em um poderoso coletor, que estoca muito mais informações que os cookies tradicionais. E seu cache apenas pode ser desabilitado a partir do próprio site da Adobe, ao contrário dos cookies, que podem ser destruídos diretamente pelo próprio usuário.
Aos registros de cookies e Flash devem ser somados os arquivos cache dos browsers, que também podem ser usados para coleta de informações sobre os nossos rastros. Embora haja algo de positivo nessa facilidade de coleta de informação, como o combate à ação de criminosos, por outro lado é intolerável o seu potencial como elemento destruidor dos direitos civis.
Governos tecnologicamente capacitados podem espionar à vontade a vida privada de seus cidadãos. E quanto mais informação eles coletam sobre os indivíduos, mais poderosos eles se tornam. Isso se torna um desastre e uma ameaça direta à liberdade, principalmente se pensarmos como são poucos o os países que têm leis que impedem funcionários governamentais de violarem a privacidade de seus cidadãos. O país que estabelece mais barreiras à ação do estado contra a população é o Canadá, que chega a considerar a coleta governamental não autorizada de informação como crime.
Os direitos individuais são frágeis ao extremo perante a combinação de interesses entre um estado cada vez maior e mais intrusivo, e corporações que buscam monopolizar os meios de comunicação e de trânsito de informação.
Isso é tanto mais grave em países [ainda] democráticos como Brasil, Reino Unido, França e Rússia, onde as fronteiras entre o aparato governamental, as redes de televisão, as redes de telefonia e de internet, são pouco precisas. Essas são nações em que o estado, não contente em regulamentar minuciosamente todo o setor de comunicações, assume ele próprio o papel de fornecedor de conteúdo. Mais grave ainda, existe um trânsito de funcionários constante entre empresas privadas, empresas estatais, e os próprios organismos regulatórios.
As empresas estatais de comunicações, e também os escritórios governamentais encarregados da regulamentação da área, transformam-se numa burocracia com vida própria. Sempre mais sequiosos de poder, esses funcionários acabam uniformizando a linguagem da informação, assim como normatizando a sua distribuição.
Isso resulta em um paradoxo: ao mesmo tempo em que aumenta seu poder de produção e distribuição de informação, o estado também empobrece e uniformiza a informação. Por esse motivo, a burocracia estatal, que por sua própria natureza é infensa à criatividade, à vitalidade e à espontaneidade da cultura cotidiana, acaba precisando das empresas de mídia social, ou socialnet. Por que na socialnet os próprios usuários são simultaneamente produtores de conteúdo, e dessa forma as tendências observadas são reais, e não manipuladas.
O acesso à torrente de informação incessantemente coletada pelas redes sociais, sem o consentimento ou mesmo o conhecimento dos usuários, é como uma mina de ouro para as empresas de comunicação. E é dessa mina que elas tiram seu sustento e seu poder. É só pensar na capacidade de coleta de informação, até mesmo informação confidencial que tem o monstro chamado Google. Nem mesmo as agências de segurança governamentais podem, nos dias de hoje, prescindir da sua colaboração.
Mas se, por um lado, a socialnet é uma fonte inesgotável de informação para os governos e empresas, por outro ela permite que os usuários escapem ao controle dos poderes interessados em manipulá-los. A informação é fonte de poder não só para os governos ou grupos organizados, mas também para os cidadãos.
É por esse motivo que ditaduras como a chinesa ou a cubana controlam rigidamente o acesso de seus cidadãos não somente aos mecanismos de busca, mas também à própria internet como um todo. Nada mais exemplar que o controle selvagem imposto pelos burocratas de Pequim à divulgação de informações sobre o levante popular no Tibet. Esse desejo de controle é a tal ponto entranhado, que nem mesmo a proximidade das Olimpíadas impediu o recrudescimento da censura.
As redes sociais reúnem milhões de pessoas, e se constituem em um invisível tesouro de informações. Na verdade, elas são um gigantesco banco de dados, reunindo informação não-filtrada de grande parte da população do planeta. O que as pessoas não percebem, é que não controlam a informação que elas próprias colocam na rede. Além disso, as redes sociais são, no momento, o mais cobiçado instrumento de poder não somente para as grandes corporações, como para os governos.
As pessoas passam cada vez mais tempo nas redes sociais, e assistem cada vez menos à televisão. Também buscam as notícias que querem não mais em portais da internet, mas nos seus próprios sites sociais. Dessa forma, a publicidade teria necessariamente que passar por uma crise de proporções cataclísmicas. É o que está acontecendo, e o processo somente está começando. O retorno da publicidade televisiva é cada vez menor, pois há cada vez menos telespectadores.
Para se financiarem, as redes sociais têm que se decidir por um modelo de negócios. Podem ser totalmente gratuitas, como Facebook, MySpace, Orkut, Vox. Podem ser mistas, como Flickr. Ou podem ser pagas, como LiveJournal e TypePad. É evidente que todas elas são pagas, a diferença é sobre quem paga. Mesmo as supostamente gratuítas só o são para o usuário, os anunciantes estão pagando as contas.
E esse é o problema. Os produtores de conteúdo são os usuários, as empresas da socialnet apenas prestam o serviço de facilitar a divulgação da informação. E isso significa ligar as pessoas em uma cadeia sem fim, linkar. No entanto, os que pagam as contas reclamam o direito de acesso aos dados dos usuários. Os patrocinadores não precisam de dados pessoais específicos, como endereços, números de cartão de crédito, de telefone ou email. Claro, isso seria um escândalo e colocaria tudo a perder.
Eles querem, isso sim, o conhecimento a respeito dos padrões de navegação de cada um. Para onde cada um de nós vai, ao saltar de página em página. Querem saber qual a lógica e o padrão por detrás da navegação. E sempre há uma lógica e um padrão, desde que se reúna uma massa suficiente de informação. Mais, qual é a rede pessoal de parentes, amigos, conhecidos e clientes de cada pessoa?
Reunida essa informação, é plenamente possível descobrir padrões passíveis de manipulação pelas agências de publicidade. E isso permitirá compensar as rendas decrescentes da pubicidade feita através da televisão. A questão é: até que ponto isso compromete a privacidade, a segurança e mesmo os direitos civis da população?