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O Google comprou, em 2004, uma empresa de software chamada Keyhole, Inc.
Isso não é importante à primeira vista, pois o Google é um dos maiores compradores do mercado, tendo já engolido dezenas de empresas ao longo do tempo. Sendo uma das empresas mais capitalizadas da era da Internet, o Google tanto mais rapidamente cresce, quanto mais velozmente devora empresas menores.
Isso também não é novidade na economia das empresas da área, e é fácil encontrar exemplos: a Microsoft também procede da mesma forma, embora com ética discutível; a HP devorou a Compaq; a Apple comprou a NeXT; e por aí vai...
O que diferencia o Google é o fato de que ele compra não somente as empresas e suas tecnologias. Ele também absorve as pessoas envolvidas nos processos criativos dessas tecnologias. É isso que potencializa o Google naquilo que ele sabe fazer de melhor, inovar, e que o transformou em uma verdadeira máquina de produção de riqueza e, embora de forma menos evidente, de poder.
Voltemos à compra da Keyhole. Essa pequena empresa havia desenvolvido um programa de globo virtual [ou Terra virtual] chamado EarthViewer. Ele consistia na justaposição georreferenciada de imagens de satélite a um globo terrestre. Sua maior vantagem era a automatização dos procedimentos, que garantia ao usuário final simplicidade e acurácia no processo de localização de pontos geográficos.
A grande responsável por essa inovação revolucionária foi a linguagem de programação desenvolvida pela Keyhole, a KML [Keyhole Markup Language]. Evidentemente, ao comprar a empresa o Google comprou também a sua linguagem, e trouxe juntamente com ela seus desenvolvedores. Deu-lhes ampla liberdade de trabalho, polpudos salários e, mais importante, um ambiente de trabalho como somente o Google sabe proporcionar, potencializador de criatividade e inventividade.
O EarthViewer foi rebatizado com o nome de GoogleEarth e fornecido ao público gratuitamente; apenas a versão empresarial é cobrada. A gratuidade provocou uma avalanche de interesse, e transformou o GoogleEarth, primeiro, no mais popular programa geográfico, e depois em virtual monopólio na área. Milhões de pessoas utilizam o GoogleEarth todos os dias, ele é uma das três ferramentas que alicerçam a empresa: GoogleEarth, GoogleMail, GoogleSearch.
Para consolidar sua posição no mercado geográfico, o Google acaba de dar mais uma jogada de mestre: doou para o OGC [Open Geospatial Consortium] a linguagem KML, o que passará a permitir acesso irrestrito de programadores do mundo inteiro a seu código. O resultado evidente disso é que, com o tempo, as várias linguagens geográficas de georreferenciamento local e global, conhecido como GPS/GIS, serão paulatinamente substituídas pelo padrão KML.
Essas linguagens, e também os formatos produzidos por elas, são segredos comerciais vitais para a sobrevivência das companhias que os desenvolveram. Companhias que são competidoras do Google no multi-bilionário mercado de GPS e de Informação Geográfica. O mercado sofrerá um terremoto de enormes proporções a curto e médio prazos.
Mais uma vitória avassaladora para o Google.
Existe uma anomalia importante na Internet. Ela consiste na enorme concentração de poder nas mãos de uma só empresa, o Google. Na verdade, tudo leva a crer que o Google, ou seus controladores, em nenhum momento sequer sonharam, ou mesmo quiseram dispor de tamanho poder monopolista.
Se apenas dois ou três anos atrás alguém sugerisse que se estava caminhando para a situação atual, todos os especialistas repudiariam a menor possibilidade de que isso viesse a acontecer.
Seria crível, em 2006, que o futuro do moderno Leviathan, a Microsoft, estaria ameaçado pelo bando colorido e quase folclórico de programadores do Google? Alguém acreditaria, em 2005, que o Yahoo! estaria despencando ladeira abaixo, ou que a AOL seria apenas mais uma empresa que perdeu a mão e a clientela?
Ou então que a Web 2.0, a teia de redes sociais, surgiria de um momento para o outro e destruiria a arquitetura rígida nos grandes portais? Ou que o monopólio das grandes empresas jornalísticas cairia por terra, ameaçando a própria sobrevivência de tradicionais e orgulhosos jornais como o New York Times?
Pois isso tudo acabou por acontecer, e em grande medida por causa do estouro da Grande Bolha da Internet, que foi um verdadeiro massacre para as empresas iniciantes de tecnologia, as startups. Quando houve a quebradeira geral, todos se viram à procura de uma saída da catástrofe, e aparentemente apenas o Google se viu em condições de apontá-la: a combinação entre o seu engenho de buscas baseado em spider-robots, de uma eficiência enorme, e um sistema onipresente de publicidade online.
Como uma das pouquíssimas empresas capitalizadas à época do estouro da Bolha, o Google saiu comprando dezenas de empresas. E com elas vieram milhares de cérebros, programadores que ficariam desempregados sem o Google ali para contratá-los. Na verdade, hoje em dia muitas empresas são montadas tendo em vista sua compra pelo Google.
Mas a grande mágica do Google foi a criação de um ambiente de trabalho que atrai pessoas criativas como mel atrai moscas. Horários inexistentes, reuniões reduzidas ao mínimo, liberdade total para inovar e errar, a possibilidade de levar crianças e animais de estimação para a empresa, e por aí vai.
Provavelmente, apenas uma outra grande empresa tem tantas pessoas criativas quanto o Google, a Apple. A Apple também causou um terremoto em outros setores da Internet, ao reinventar o mercado televisivo, cinematográfico e musical com a dupla iPod/iTunes, e o mercado de telefonia com o iPhone.
Essas duas empresas provaram que não basta apenas dispor de uma grande quantidade de capital financeiro. É mais importante ainda dispor de uma grande quantidade de capital humano, e saber como catalizar e liberar essa energia explosiva chamada às vezes de criatividade, outras vezes de inventividade.
Nós vivemos em tempos cada vez mais interessantes, o que virá a seguir?