Em duas ocasiões anteriores, no texto “A inversao lógica e ética na questão Andina“ e em “Por dentro da mente de Eliot Spitzer“, abordei assuntos relacionados a inversão de valores morais e da própria ética nos dias de hoje.
Alguns fatos ocorridos no Brasil esta semana me obrigam a novamente alertar o leitor para esse procedimento nefasto - defender, com unhas e dentes, um ponto de vista, quando mantido no campo da retórica, porém proceder de maneira inversa quando se parte para o campo da ação, da realidade.
Vamos aos exemplos:
Primeiro - “Defensora da legalização do aborto, a deputada Cida Diogo (PT-RJ) lamentou que o assunto “tenha sido discutido pela ótica fundamentalista e da religiosidade”. “Pessoalmente sou contra o aborto, mas também sou contra prender uma mulher que faça a opção pelo aborto. Além da decisão dolorosa e muitas vezes solitária, ela não tem condição de ser atendida no sistema público e ainda corre o risco de ser presa. É hipócrita pensar só em concepções fundamentalistas e religiosas e não pensar nessa mulher”, afirmou.” [Estadão on line, em matéria de Luciana Nunes Leal]
Ora, se a ilustríssima deputada diz ser “pessoalmente” contra o aborto, estamos diante de duas opções: ou vota, inexplicavelmente, contra suas convicções pessoais, contrariando sua consciência e seus valores morais e éticos; ou diz algo no campo retórico, e procede de outra forma completamente diferente na prática, mostrando dessa maneira a sua real intenção.
Não vamos aqui discutir pontos a favor ou contra o aborto, mas sim a práxis da interação discurso-realidade. Se, num discurso, as idéias são apenas desenvolvidas no aspecto intelectual-abstrato, depois devem vir a ser testadas, ou experimentadas, no mundo real. Essa é a quimica da interação discurso-realidade. Se eu digo algo, isso deve, necessariamente, ser condizente com aquilo que quero colocar em prática. Caso contrário, se trata de uma falácia, uma mentira, uma tentativa de ludibriar o outro lado e os espectadores do discurso.
Voltando ao caso da ilustre deputada: ela diz ser contra o aborto, mas diz que vota a favor. É a mais clara manifestação de alguém mal-intencionado tentando justificar uma atitude impopular. Ou será um caso clínico de dupla personalidade?
Segundo - “O movimento pela legalização da maconha é um movimento social internacional que defende os direitos de centenas de milhões de pessoas pelo mundo que consomem esta planta, cuja tradição de uso é mais que milenar. (…) Tal proibição [da chamada “Marcha da Maconha”] numa cidade como Salvador, afronta um significado étnico e cultural do uso dessa planta, que é uma parte da herança cultural africana. Sobre esse aspecto assim se expressou Gilberto Freyre: “as tradições religiosas, como outras formas de cultura, ou de culturas negras, para cá transportadas, junto com a sombra das próprias árvores sagradas, com o cheiro das próprias plantas místicas - a maconha ou a diamba, por exemplo - é que vêm resistindo mais profundamente, no Brasil, à desafricanização. Muito mais do que o sangue, a cor e a forma dos homens. A Europa não as vencerá.” (Sobrados e Mucambos, 2003, p.797)(…)” [Artigo publicado no Jornal do Brasil, por Henrique Soares Carneiro, historiador]
Aqui temos mais um caso (ou melhor - uma aberração) de inversão lógica e moral. O autor do texto usa a suposta tradição histórica do uso da Maconha como argumento a favor da descriminização da droga e ainda emenda com uma citação de Giberto Freyre, alegando que o uso da erva faz parte da “tradição religiosa” africana.
Ora, no Brasil (e em quase todo o mundo) a produção, comercialização e consumo da droga são considerados crimes. E a apologia ao crime é também crime! Pela lógica, pura e simples, um movimento pela legalização de um delito é um delito também!
Mais uma vez não quero discutir os pontos a favor e contra o assunto, mas sim os mecanismos retóricos. Se devemos, cegamente, aceitar as tradições “milenares” e “religiosas” como válidas hoje, o primeiro passo seria permitir aos Astecas a volta de seus rituais que envolviam o assassinato de pessoas para uso de seu sangue em rituais religiosos ao deus Sol. Ou melhor: devíamos clamar pela volta da lei do Talião (olho por olho, dente por dente) como forma de conter a onda de violência que assola o país. Os pais do menino João Hélio deviam ser os primeiros a poder montar uma milícia!
O argumento é: se eu uso drogas “históricas”, sou um agente cultural. Se o consumo dessas ervas permanece, se trata de uma resistência à desafricanização, de uma resistência à cultura imposta pelo homem branco. A melhor forma de se descriminalizar um crime é justamente essa: alegar que o crime não é crime, que o bandido não é bandido.
Digam-me: serão os traficantes os “produtores culturais da periferia”?
Ou melhor, me poupem.
Também pode ser lido no link: http://vide.blog.br/o-discurso-e-a-pratica/ do site http://www.vigilanciademocratica.org
